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sábado, 1 de junho de 2013

Histórias Bíblicas para Intervenções - Psicopedagogia e Arteterapia

História de Davi e Golias 

davi_golias.jpg (300×228) 
Baseado no relato bíblico de I Samuel 16 e 17

Ao sul de Jerusalém achava-se a cidade de Belém onde vivia um homem chamado Jessé, e sua família. Ele tinha oito filhos e duas filhas.
Davi, o oitavo filho, caçula dos homens, era ruivo, de belos olhos e boa aparência. Era sisudo em palavras, forte, valente, tocava harpa, compunha e cantava músicas. Responsável pelas ovelhas de seu pai, vivia solitário e com simplicidade nas colinas próximas à cidade.
Esquecido por seu pai e sua família era considerado um João-ninguém. Possuía um coração de servo, humildade e cuidava fielmente das ovelhas.
Um dia, o profeta Samuel foi à casa de Jessé cumprir uma ordem de Deus. Deveria ungir, dentre os filhos, um novo rei para Israel. Quem seria o escolhido ele ainda não sabia. Após apresentarem um sacrifício a Deus, talvez de purificação, o profeta mandou o pai chamar todos os filhos, no entanto, esqueceu-se de chamar a Davi que continuou o pastoreio sem saber do que acontecia em sua casa.
Um a um passou a conhecer os jovens rapazes. O primeiro foi o mais velho, Eliabe. Tinha porte de rei, era alto, de boa aparência, homem de guerra, mas possuía um espírito crítico, negativo e desprezava o irmão caçula. Possuía, segundo o olhar dos homens, todas as qualidades necessárias para ser o novo rei, até se parecia com o rei Saul, contudo Deus disse não a Eliabe. Ele não era o escolhido. 
Trouxeram o segundo filho, Abinadabe, depois Samá, até passar os sete rapazes fortes, de boa aparência e homens de guerra, mas que não apresentavam todas as qualidades que Deus desejava. Por isso, um a um foram sendo recusados pelo Criador. Então Samuel perguntou a Jessé:
_ "Acabaram-se os teus filhos"?
_ " Ainda falta o mais moço, que está apascentando as ovelhas", respondeu Jessé.
_ " Manda chamá-lo, pois não nos assentaremos à mesa sem que ele venha."
O pai, que não apreciava igualmente todos os filhos e deixou de cultivar entre eles o respeito mútuo, mandou um mensageiro chamar Davi, o filho que ele menosprezava.
Ao receber o mensageiro chamando-o para ir para casa o rapaz se surpreendeu e procurou saber o que o profeta desejava com ele.
No momento em que ele entrou em casa, Samuel ouviu a voz de Deus dizendo:
_ "Levanta-te, e unge-o, porque este é meu."
Samuel derramou sobre a cabeça do jovem adolescente o azeite que estava no chifre e o ungiu secretamente no meio de seus irmãos. Naquele momento Davi compreendeu o alto destino que o aguardava, mas mesmo assim voltou ao campo, um lugar de paisagem rica e variada beleza, para continuar cuidando das ovelhas. Ali podia compor, tocar sua harpa e cantar suas músicas com voz melodiosa.
Um dia o rei Saul estava muito triste e enlouquecido e pediu que procurassem um bom músico que pudesse acalmá-lo com o som de seu instrumento. Chamaram então a Davi. Ele passou a frequentar o palácio a fim de tocar para o rei sempre que este estava angustiado e deprimido.
Passado algum tempo, Israel declarou guerra aos filisteus. Os três filhos mais velhos de Jessé tomaram parte no exército sob o comando do rei Saul. Davi permaneceu cuidando das ovelhas até que seu pai o chamou e o mandou ir ao encontro dos irmãos para saber como eles estavam e para levar presentes. Ao chegar ao acampamento, no vale de Elá, que mais parecia um desfiladeiro e que tinha um ribeiro ao fundo, ouviu um ruído como se a batalha estivesse prestes a ter início. O exército de Israel estava abatido e amedrontado porque durante quarenta dias vinha sendo ameaçado e intimidado pelo gigante Golias.
De repente... todos ouviram novamente a voz do gigante insultando e desafiando alguém do exército de Israel a lutar contra ele. Davi, que estava conversando com seus irmãos, deixou de lado os presentes que levava. Com indignação e vergonha, perguntou:
_ "Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?"
Ao ouvir as palavras de Davi, Eliabe, seu irmão mais velho, cheio de ciúmes, encheu-se de ira e disse:
_ "Por que vieste realmente? E a quem deixaste aquelas poucas ovelhas no deserto? Conheço a tua insolência e a maldade do teu coração. Vieste por curiosidade. Só queria ver a batalha."
Davi então respondeu com respeito:
_ "Que fiz eu agora? Porventura há razão para isso?"
Todos estavam amedrontados e haviam fugido diante do chamado de Golias. Até mesmo o rei Saul que era o mais alto de todos os homens no exército de Israel e seu líder, mas um medroso.
O jovem rapaz se ofereceu para lutar contra o gigante, porém todos diziam que era loucura, pois além de muito jovem não estava acostumado à guerra. O rei tentou desanimá-lo, não acreditava que pudesse ser bem sucedido, mas ele estava certo da vitória pois confiava plenamente na ajuda Divina. Contou para ele como Deus o havia ajudado a matar um leão e um urso com suas próprias mãos enquanto defendia as ovelhas. Saul mandou que vestissem nele toda a sua armadura. Depois de ter vestido cada peça daquela roupa especial, o rei o abençoou e Davi saiu para o combate, mas não conseguia se movimentar, pois a roupa era muito grande e pesada para ele. Por causa disso, voltou para tirar a roupa e por alguns instantes os soldados pensaram que ele tivesse desistido.
Davi, com suas próprias roupas, juntou seus instrumentos de defesa no cuidado das ovelhas: o cajado, o alforje e sua funda. Passou pelo riacho que havia ali próximo, pegou cinco pedrinhas bem lisas e se dirigiu para a frente da batalha onde viu e encontrou-se com Golias pela primeira vez. Manteve-se confiante e convicto da vitória.
Golias media quase três metros de altura. Era forte, vestia uma armadura de bronze que ia dos ombros ao joelho e pesava entre 80 e 90 Kg. Tinha na cabeça um capacete de bronze e nas pernas caneleiras também de bronze. Levava entre os ombros uma lança de bronze cuja cabeça pesava de 9 a 11 Kg. Diante dele ia um escudeiro.
Ao ver Davi, o gigante encheu-se de ira, começou a amaldiçoá-lo, a intimidá-lo e gritou:
_ "Sou eu algum cão para tu vires a mim com paus? Vem a mim e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo."
Pelo que Davi respondeu:
_ "Tu vens a mim com espada e com lança e com escudo; porém eu venho a ti em nome do Senhor dos exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo o Senhor te entregará na minha mão. Ferir-te-ei, e te tirarei a cabeça, e os corpos do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves do céu e às bestas da terra. Toda a terra que há Deus em Israel. E saberá toda esta congregação que o Senhor salva. Não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra. Ele vos entregará na nossa mão."
A ira tomou conta de Golias e com raiva cometeu seu fatal deslize, tirou o capacete que lhe protegia a testa e lançou-se para o combate. Davi não excitou, apressou-se e correu ao combate. Tirou do alforje uma pedrinha, colocou na funda, girou e lançou a pedra que atingiu o gigante na testa e o fez cair com o rosto sobre a terra. Usando a própria espada de Golias, o rapaz cortou-lhe a cabeça e a levou para que todo o reino pudesse ver.
Os filisteus, vendo seu guerreiro morto no chão, saíram dali correndo e foram perseguidos e vencidos pelo exército israelita.
Como Saul havia prometido, quem vencesse o gigante receberia muitas riquezas e se casaria com a filha do rei, assim foi. Davi passou a morar no palácio real, tornou-se instantaneamente popular. Casou-se com uma das princesas e mais tarde, conforme o plano de Deus, tornou-se o novo rei de Israel após a morte de Saul.
Tudo quanto fez Davi, prosperou, pois o Senhor estava com ele.

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http://www.historiasbiblicas.com.br/downloads/HB005_Davi-e-Golias.zip

http://www.historiasbiblicas.com.br/downloads/colorir_HB005_Davi-Golias.zip

http://www.historiasbiblicas.com.br/downloads/HB009_Nascimento-Moises.zip

http://www.historiasbiblicas.com.br/downloads/HB007_Daniel-e-o-Sonho-do-Rei.zip

http://www.historiasbiblicas.com.br/downloads/colorir_HB007_Daniel-Sonho-do-Rei.zip




quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Abordagem Terapêutica da História Bíblica de José no Egito - Psicopedagógica e Arteterapêutica



                


Na história bíblica de José no Egito encontra-se a questão da perda, focada primeiramente na morte da mãe e depois na separação do pai e irmãos ao José ser vendido para o Egito; encontra-se a rivalidade entre os irmãos e a angústia da castração em diversos momentos terminando com o reencontro vitorioso e feliz da família após longos anos de solidão sem qualquer informação a respeito de seus entes queridos.
Conforme a história judaica, José tinha onze irmãos, era o filho mais velho da esposa amada e tinha a beleza de sua mãe Raquel. Era o filho favorito de Jacó que lhe dedicou bastante tempo ensinando tudo o que havia aprendido de seu pai, avô de José, e nas academias de Shem e Ever.
Segundo Wondracek (2003) após a morte de Raquel no parto de Benjamim, Jacó assumiu a função paterna e materna e isso criou-lhe dificuldades de  tirar o filho da posição fálica.
De acordo com a cultura judaica, ao pai cabe o papel, a função de manter a linhagem da família; ele é a autoridade máxima e a mãe tem a função de procriar e cuidar dos filhos. Quando uma mulher era incapaz de gerar um filho, trazia vergonha sobre si, e no caso de Raquel era uma tortura ver a irmã e as servas tornando-se mães de filhos do esposo tão amado. Conforme Wondracek (2003) com o nascimento de José ele retira a mãe da vergonha de ser estéril e através do nascimento de mais um filho ela perde a vida.
Como demonstração de sua condição de filho predileto de seu pai, José ganha de presente uma túnica de várias cores e longa, característica das roupas de nobres e chefes tribais, fortalecendo o narcisismo existente nele. José sonha que é reverenciado por sua família e choca até mesmo a seu pai, mas não consegue interpretá-los.
Wondracek (2003) ao citar os sonhos diz que “seu psiquismo está estruturado, é capaz de produzir formações do inconsciente”. ... “considerando seus sonhos apenas no aspecto psicológico, pode-se dizer que eles expressam a realização dos desejos de todo ser humano na etapa do narcisismo – ser o falo, ser o todo poderoso.”
Cumprindo uma ordem do pai, José sai ao encontro de seus irmãos que cuidavam do rebanho no campo. Ao vê-lo, desejam matá-lo, mas sob a proteção do irmão mais velho, José acaba sendo jogado no poço onde fica solitário.
Pode-se verificar aqui a questão da rivalidade fraterna e o autor Bettelheim (1980) aponta que esta rivalidade está relacionada diretamente com o sentimento que a criança tem pelos pais. Quando um filho é privilegiado por receber uma atenção especial dos pais, o outro filho pode sentir-se menosprezado e rejeitado. O que gera a rivalidade entre os irmãos é o temor de não receber o amor e a consideração dos pais mediante a comparação existente entre os filhos. Segundo ele, isso pode ser observado nas histórias “através do fato de que pouco conta se os irmãos realmente possuem maior capacidade”.( op.cit..279)

A estória bíblica de José diz que o comportamento destrutivo de seus irmãos se deveu a ciúmes do afeto que o pai lhe dedicava. À diferença de Borralheira, os pais de José não partilhavam das humilhações que faziam a ele e, ao contrário, preferiam-no aos outros filhos. Mas José, como Borralheira, é transformado em escravo e, como a menina, escapa milagrosamente e termina superando os irmãos. (op.cit.279)

O poço representa a angústia e a luta enfrentada diariamente e ao entrar nele pode sair renovado, com experiências novas e mais encorajado para os novos obstáculos.
Para Wondracek ( 2003 *) os irmãos exerceram “a função paterna do corte”, uma castração simbólica, ao retirarem a túnica dada pelo pai, jogarem José no poço e o venderem como escravo para o Egito.
Para o povo judeu o Egito lembra a escravidão e a autora o relaciona com algo “traumático”, com uma “escravidão interna”. Para ela houve um “colapso narcisista” quando passou “de príncipe a escravo”.
O Egito representou para José uma escola, onde ele enfrentaria o sofrimento, a angústia, a castração e os conflitos constantes para sair-se vencedor, como um ensinante-aprendente.

Bettelheim (1980, p. 241) diz que:
Quando a posição da criança dentro da família torna-se problemática para ela ou para os pais, ela começa o processo de luta para escapar da existência triádica. Com isso, penetra no caminho desesperadamente solitário de buscar-se a si mesmo, uma luta na qual os outros servem principalmente de elementos que facilitam ou impedem este processo. Em alguns contos de fada o herói tem de procurar, viajar, e sofrer vários anos de existência solitária antes de estar preparado para encontrar, salvar e reunir-se a outra pessoa numa relação que dá significado permanente às duas vidas.

De acordo com a história judaica, José tinha dezessete anos quando foi vendido para Potifar, principal funcionário da guarda do rei, atraído por sua beleza, sua sabedoria e sua fina educação.
White (1993, p.212) diz que durante algum tempo ele entregou-se a “uma dor e pesar incontidos. Mas, na providência de Deus, mesmo esta experiência seria uma benção para ele. Aprendeu em poucas horas o que de outra maneira anos lhe poderiam ter ensinado.”
“ José acreditava que o Deus de seus pais seria o seu Deus.”( op.cit.214)
A autora Wondracek (2003) cita que José não permaneceu preso no tempo, nem se sentiu totalmente desamparado. “Deus, como um pai amoroso, que impede a posição fálica mas abre uma outra via, como o pai do 3º tempo. Um pai simbólico, não mais terrível, que acompanha a restauração depois do traumático.”
Por causa de seus talentos incomuns logo foi promovido por Potifar. Renovado em seu amor-próprio pela certeza da proteção do Deus eterno, esforçava-se em fazer tudo bem feito e por isso tudo que tocava prosperava. Não se deixou influenciar pelos aspectos negativos da vida egípcia. A beleza e simpatia do jovem rapaz chamou a atenção da severa esposa de Potifar que tentou seduzi-lo. Por manter-se honesto, fiel e firme em seus princípios foi acusado injustamente e colocado na prisão.
            A prisão também pode representar a angústia, o sofrimento, a luta do dia-a-dia.
Segundo a história judaica, da mesma forma como se comportou na casa de Potifar e prosperou, assim aconteceu na prisão.
Wondracek (2003) cita que

....novamente se encarrega dos negócios do outro, situando-se como filho que serve ao pai, e se torna depositário da sua total confiança. Todas às vezes, José galga os postos até ser o “imediatamente abaixo” da autoridade máxima. Não será uma procura de repetir a posição que ocupara junto ao coração do pai?

Na prisão começa a ficar conhecido por interpretar sonhos através do qual consegue a liberdade. Wondracek (2003) faz uma metáfora ao dizer “que entender nossos sonhos nos liberta da prisão que a censura impôs aos nossos desejos conscientes.”
Os sonhos foram para José um alimento vitalício. Quando pais chegam à clinica psicopedagógica levam sonhos destruídos e filhos encarcerados ao sintoma do não aprender. Quando o psicopedagogo resgata a história de cada paciente se defronta com as angústias, castrações, sofrimentos, conflitos e incertezas quanto às decisões a serem tomadas. Representa também para o paciente, aquilo que José representou para os servos do rei e para o próprio rei Faraó, previsões de tempos bons e maus.
Ao interpretar os sonhos do Faraó, José se recusa, de acordo com WONDRACEK (2003), a ocupar o lugar do sujeito-suposto-saber quando diz que a interpretação não vem dele e sim de um Pai maior que ele.
A história conta que a interpretação dos sonhos do rei mostrando que haveria um período de fartura e outro de fome intensa eleva José a um autoposto no governo, tornando-se o homem mais importante depois do rei, responsável por organizar e fazer provisões durante a fartura para o período de fome.
José, agora como trinta anos de idade, é então vestido com vestes reais, com uma túnica especial, com jóias de ouro e com um anel contendo o sinete real. Para Wondracek (2003) a história familiar se repete com a diferença de que agora recebe a filha do rei como esposa – “a interdição paterna fecha o lado do retorno para a mãe (passado), mas abre para o futuro.”
O período dos anos de “vacas gordas”, para a autora, foram vividos por José durante sua infância, na prosperidade na casa de Potifar e agora como vice-rei do Egito. Para ela, nesta época, não só a semente da terra produziu, mas também a de José ao armazenar alimento que o retira da privação emocional.
Ao citar Freud (1921), ela menciona que alguns acontecimentos psíquicos não são elaborados no momento em que ocorrem por uma incapacidade do psiquismo de dar conta de fazê-lo naquele momento. A compreensão só ocorre num outro momento quando algo liga psiquicamente o traumático e o fixa dentro do psiquismo.
Segundo o relato histórico, José construiu imensos celeiros onde armazenou as provisões de alimentos. Ao citar S. Bleichmr (1994), a autora coloca que a construção dos celeiros representa construir paredes que sirvam de tampão, obturação, para que o sofrimento não fique circulando solto dentro do psiquismo.
Com o nascimento do primeiro filho a história se repete, há novamente um pai e um filho. José agora ocupa a função de pai. Deixa de ser o segundo, saindo da posição na qual sofria com a falta do pai, e passa a ser o primeiro colocando alguém em seu lugar.
Com o nascimento de seus dois filhos José pôde re-significar os seus traumas, mas não completamente. O sofrimento causado pela relação com os irmãos ainda não estava resolvida.
Conforme o relato bíblico e outros autores que narram a história judaica os irmãos de José foram ao Egito em busca de alimentos. Ele sofreu ao encontrá-los. Não foi reconhecido e por isso se aproveitou para testá-los, enganando-os e prendendo-os, fazendo com que sofressem um pouco do que havia passado. Da mesma maneira como seus irmãos mentiram a respeito de seu desaparecimento José os cerca em determinados momentos por mentiras reativando as lembranças do que fizeram. O desejo de vingança foi dominado porque dentro dele havia uma lei paterna inscrita – o temor a Deus.
Wondracek ( 2003 *) citando Freud (1921) menciona que a repetição tem o objetivo de dominar a angústia.

Quando a criança passa da passividade da experiência para a atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros de brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto. ... há maneiras e meios suficientes para tornar o que em si mesmo é desagradável num tema a ser rememorado e elaborado na mente.(op.cit,p..27)

 Desta forma, José repete sua experiência traumática de diversas maneiras fazendo com que sua angústia seja expressa em palavras. Wondracek (2003) diz que

Tudo aquilo que não é transcrito para palavras permanece solto, livre, aterrorizante. Por isto o processo terapêutico e a confissão, tomam a forma libertadora – o que aflige é posto em palavras, recebe um nome, e com isto passa ao plano do simbolizado, passível de representação. Dar um nome à dor é um trabalho da alma, é construir o saber do padecer.

Quando os irmãos retornaram ao Egito levando Benjamim, foram recebidos na casa de José para uma refeição. A cena de todos os irmãos à mesa, levam-no a relembrar a casa de seu pai. Volta a fazer parte da cena familiar e do afeto do qual teve que renunciar para poder sobreviver durante os anos de solidão.
Ao prender ao irmão menor, Benjamim, José faz com que seus irmãos relembrem o sofrimento causado ao pai pelo que fizeram a ele e os leva a verbalizarem sua culpa e arrependimento. José chora ao ouvir a confissão dos irmãos libertando sua angústia até então trancada dentro de si. Já não consegue mais esconder sua identidade e se apresenta aos irmãos. Chorou tão alto que, segundo o relato bíblico, até “os egípcios ouviram, e a notícia chegou até o palácio do rei.” (GÊNESIS 45: 2)
Imediatamente busca saber se o pai ainda está vivo e manda buscá-lo para que venham viver com ele no Egito. No reencontro restaura-se a relação perdida, volta a ser o segundo junto ao primeiro, seu pai.
José finalmente encontra um significado para seu sofrimento ao dizer que Deus o enviara ao Egito antes deles para preserva-lhes a vida e conservar a descendência. Wondracek (2003) cita que “ achar um sentido no sofrimento é o que impediu que José sucumbisse com tudo que lhe aconteceu. Achar um sentido é poder ligar o sofrimento a algo, é poder representar, simbolizar, e com isto dar um nome, dar um rosto, e não só engolir como fogo.”
Andrade (1998, p.27) diz que “ o passado, e tudo que não seja da ordem do futuro é passado, deixa de ser um tempo perdido para tornar-se um celeiro das dimensões reprimidas que, resgatadas voltam plenas de possibilidades e realizações onde a história se deforma e se transforma num futuro onde as limitações do presente podem ser superadas.”
José, assim como Cinderela, vivencia a perda materna e um luto pela perda paterna, a rivalidade fraterna, o trabalho escravo e a transformação de escravo em pessoa  poderosa. Este relato bíblico apresenta vários temas universais e arquétipos também encontrados e explorados por vários contos de fada, e que ao serem apresentados à criança que vive conflitos semelhantes possibilitam-lhe apropriar-se dos instrumentos internos utilizados pelo personagem para resolução de seus próprios conflitos.



REFERÊNCIAS 

ANDRADE, M. S Psicopedagogia Clínica, Manual de Aplicação Prática para Diagnóstico de Distúrbios do Aprendizado. São Paulo: Póluss Editorial,1998.

BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fada, Rio de Janeiro: Paz e                  Terra. 1980.

BÍBLIA SAGRADA. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

WHITE, E. G., Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1993.

WONDRACEK, K. K. José do Egito – Elaboração e Superação do Egito. Internet: http. www. anglicanismo. net/humanas/psicologia- abril/2004.


<a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt"><img alt="Licença Creative Commons" style="border-width:0" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/3.0/80x15.png" /></a><br />O trabalho <span xmlns:dct="http://purl.org/dc/terms/" property="dct:title">Abordagem Terapêutica da História Bíblica de José no Egito</span> de <a xmlns:cc="http://creativecommons.org/ns#" href="http://espacocognoarte.blogspot.com" property="cc:attributionName" rel="cc:attributionURL">Rosilene Fatima Vieira Lopes</a> foi licenciado com uma Licença <a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt">Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada</a>.<br />Com base no trabalho disponível em <a xmlns:dct="http://purl.org/dc/terms/" href="http://espacocognoarte.blogspot.com" rel="dct:source">http://espacocognoarte.blogspot.com</a>.<br />Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em <a xmlns:cc="http://creativecommons.org/ns#" href="http://espacocognoarte.blogspot.com" rel="cc:morePermissions">http://espacocognoarte.blogspot.com</a>.



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Abordagem Psicopedagógica da História Bíblica de Davi e Golias

Objetivo: Assim como no conto, a história bíblica de Davi e Golias pode:
  •  contribuir com a aprendizagem;
  • apresentar a partida, a luta, o castigo, uma ajuda (Deus) e uma questão de justiça quando o gigante é derrotado;
  • possibilitar as projeções;
  • trabalhar a criança com problema de rejeição;
  • reportar à rivalidade fraterna, pois os irmãos tinham ciúmes do que Davi fazia, do que era e do que seria no futuro (rei de Israel).
Davi: 
  • possibilidade de representar o filho que apresenta o sintoma-aprendizagem com denúncia da cadeia familiar;
  • pode representar o filho solitário, que vivia afastado da família;
  • pode representar o filho que escolhe formas diferentes de lidar com o problema, sem ser através da agressividade ou da dificuldade de aprendizagem;
  • pode representar o filho obediente que acata a ordem dos adultos, representando as crianças "ditas normais", mas que escondem seus sintomas dentro dessa normalidade;
  • possibilidade de representar o filho que causa ciúmes nos irmãos, o menosprezado pela família (o pai não via nele grande valor, além de ser o filho mais novo, pois na época o primogênito era o mais valorizado, o que tinha mais direitos);
Sacrifício: 
  • pode representar o começo da solução dos problemas.
Fogo: 
  • pode representar a purificação, ou seja, o início do tratamento.
Ovelhas:
  • podem representar a obediência às regras;
  • pode representar as crianças que seguem as normas para aprender, as crianças que precisam ser passivas - sem questionar;
  • pode representar as crianças superprotegidas.
Animais ferozes:
  • podem representar os pequenos medos que uma criança tem em seu inconsciente e que ela tenta derrotar em determinadas circunstâncias.
Música - harpa:
  • pode representar a diferença - Davi era diferente da família;
  • pode representar um mecanismo de defesa que seu ego usou para se defender das ameaças;
  • pode representar a fuga, uma forma de sublimar os problemas;
  • pode ser um sinal de produtividade;
  • pode ser um meio de encontrar a si próprio ou de auxiliar o outro (o som de sua harpa ajudava o rei Saul a transformar o seu espírito diante dos conflitos).
Funda:
  • pode representar o instrumento em que uma criança encontra para resolver os problemas - reação.
Cajado:
  • dentro da abordagem psicopedagógica, pode representar um instrumento que uma pessoa utiliza para guiar-se, um apoio para resgatar-se e manter-se dentro dos padrões;
  • pode representar o psicopedagogo, a escola, a família, o superego que poderá ajudar uma pessoa a libertar-se dos problemas.
Natureza:
  • pode ser o transmissor, a fonte, em que uma pessoa vai adquirir o conhecimento.
Profeta Samuel:
  • pode representar a escola ou o terapêuta que lembra à família do problema.
Óleo:
  • pode representar o começo do tratamento. O começo de uma nova vida, o começo da mudança.
O pai pede ao filho para levar o alimento:
  • pode ser o corte que ele faz para que o filho desenvolva a autonomia para assim originar o Supereu.
Alimento:
  • pode representar o conhecimento, o meio para a solução dos problemas.
Saul:
  • pode representar as pessoas que recuam diante dos problemas, as que tem medo de enfrentar os "gigantes da vida".
Exército de Israel:
  • pode representar os enfraquecidos, os desanimados, os que tentaram vencer os problemas, os que não tiveram coragem de enfrentá-lo.
  • pode representar a pessoa com baixa autoestima.
Armadura:
  •  podemos atribuir às crianças incapazes de aprender segundo a visão da escola. O que dá certo para uma pessoa, não significa que dará certo com a outra.
  • pode representar a pessoa que quer ser ela mesma, ou seja, que luta confiante em si mesma, que consegue vencer os problemas sem se esquivar.
  • aprisionamento do ser pensante, aprendente, autor.
Penhasco:
  • pode representar o processo ensino-aprendizagem, a trajetória que tem altos e baixos, que exige esforços e que pode ou não ser superados;
  • pode, também, representar as barreiras (inconscientes) que uma pessoa com dificuldade de aprendizagem coloca diante de si para não resolver seus traumas, por medo e insegurança.
Decisão de Davi:
  • pode representar o momento em que a pessoa faz emergir a agressividade positiva necessária para resolver seus conflitos a fim de adquirir a aprendizagem;
  • pode representar o momento em que ela decide, tem o desejo, ela faz, constroi.
Rio:
  • pode representar a fonte do conhecimento;
  • o caminho do reencontro com o conhecimento, com a autoria do conhecimento.
Cinco pedrinhas:
  • pode representar o meio final em que a pessoa encontrou para resolver os problemas que inconscientemente resultaram numa fratura na aprendizagem, que é um objeto totalmente valorizado;
  • pode representar os cinco sentidos como sendo as janelas da aprendizagem:
     - visão: viu o problema, o gigante, com olhar forte e confiante diante de si mesmo. Manteve seu olhar em Deus. (como eu vejo os problemas)
       - audição: ouviu a voz do gigante, o grito da vitória, o som da harpa. (como eu escuto os problemas)
     - tato: tocou na harpa, nos animais, na funda, nas pedrinhas, sentiu a brisa suave do rio... (como eu lido com o problema)
        - paladar: sentiu o sabor dos alimentos. (como sinto o sabor da vitória, do sucesso)
        - olfato: sentiu o aroma agradável do campo, o cheiro das ovelhas. (como percebo o problema, sua solução)
Gigante:
  • pode representar o medo, a angústia, a intimidação, a figura de um adulto (pais, professor,...) que age como se soubesse de tudo.
De acordo com Gillig, p. 79, os personagens temíveis não são mais que projeções imaginárias dos fantasmas que a criança traz consigo: medo de ser abandonada pelos pais, medo de ser devorada, medo da rivalidade fraterna. Na p. 73, ele faz uma abordagem da relação dissimétrica anão/gigante, referindo-se ao termo fantasma como sendo aquele de todos os Davis que desejam vencer Golias, assim como acredita que isso é o que se passa no conto, com certeza ocorrerá também com as histórias bíblicas, continua: pelo imaginário do eterno confronto do homem contra as forças obscuras e irracionais que o contrariam em busca do absoluto e que arriscam aniquilá-lo.
  • pode representar a criança face a face com seu problema. Ela precisa da agressividade positiva para vencer, solucionar o problema.
Armadura do gigante:
  • pode representar algo invencível.
Derrota do gigante:
  • na prepotência de Golias houve um pequeno e fatal deslize, tirou o capacete deixando a fronte exposta (a fronte é a área do cérebro responsável pelas sanções, regras e decisões; pode-se referir como sendo símbolo da inteligência).
  • o impacto da pedra na testa do gigante e a sua derrota pode significar o momento em que uma pessoa supera o problema e se dá a alta.
Premiação: ser rei
  • pode representar o amadurecimento, o crescimento, a vitória por ter vencido o gigante.
Castração de Davi:
  • deixou o pastoreio para viver a vida no palácio, ou seja, deixou a fantasia para viver a realidade.
Davi é um personagem que passou por dificuldades, mas buscou em Deus a ajuda, o que considerava realmente importante.
Como nos contos, a história bíblica de Davi e Golias teve um final feliz e isso é o que atrai as crianças. Davi soube superar os desafios que apareceram, acreditou em seus sonhos e se manteve fiel aos seus ideais. Muitas pessoas com problemas persistem nos mesmos porque não tem mais sonhos, nem perspectiva, objetivo de vida. 
A missão do psicopedagogo e do arteterapeuta é ajudar seus pacientes a terem um encontro consigo mesma com o fim de superar os "gigantes da vida". É importante a participação da família durante todo o processo.

Bibliografia

Bíblia Sagrada, tradutor, João Ferreira de Almeida. Revista        e atualizada no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

GILLIG, Jean-Marie, O Conto na Psicopedagogia. Porto  Alegre: Artmed, 1999.

SWINDOLL, Charles R., Davi, um homem segundo o coração de DEus. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

WHITE, Ellen G., Patriarcas e Profetas. São Paulo: CPB, 1993.


<a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt_BR"><img alt="Licença Creative Commons" style="border-width:0" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc-nd/3.0/88x31.png" /></a><br /><span xmlns:dct="http://purl.org/dc/terms/" property="dct:title">Abordagem Psicopedagógica da História Bíblica de Davi e Golias</span> de <a xmlns:cc="http://creativecommons.org/ns#" href="http://espacocognoarte.blogspot.com.br/" property="cc:attributionName" rel="cc:attributionURL">Rosilene Fatima Vieira Lopes</a> é licenciado sob uma <a rel="license" href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/3.0/deed.pt_BR">Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada</a>.<br />Baseado no trabalho em <a xmlns:dct="http://purl.org/dc/terms/" href="http://espacocognoarte.blogspot.com.br/" rel="dct:source">http://espacocognoarte.blogspot.com.br/</a>.







sábado, 18 de agosto de 2012

Histórias bíblicas na aprendizagem



 | Por Charlotte Fermum Lessa
Qual é a criança que não gosta de ouvir histórias? Desde Chapeuzinho vermelho até Pinóquio, o imaginário das crianças recebe farta alimentação. Meninos gostam especialmente dos super-heróis, buscando neles algo que gostariam de viver na realidade.

REFLEXÃO

Lanço aqui algumas questões que certamente já passaram pela cabeça de muitos professores. Meditando eu mesma nelas, encontrei algumas respostas, com as quais você pode concordar ou não. Ei-las:

1. Sendo que os contos de fadas e as histórias fictícias costumam fazer parte do dia a dia dos nossos alunos, que proveito podemos tirar desses contos e histórias, como professores, em sala de aula?

Um dos principais objetivos dos contos de fadas dentro dos saberes da psicologia é justamente detectar os conflitos que geram angústia na criança. E, conforme Sara Paín (1996), a fantasia serve para produzir o desejo a partir do impossível. Na sala de aula, portanto, o professor tem objetivos específicos ao usar os contos de fadas.

2. Qual é, então, o objetivo da abordagem pedagógica dos contos de fadas?

Sara Paín afirma que “a máquina de fabricar pensamentos cognitivos é completamente distinta da máquina de fabricar pensamentos simbólicos ou dramáticos. É distinta porque são distintos os mecanismos, são distintas as operações e são distintos os resultados, ou seja, as categorias que os produzem” (1996, p. 25). Note como a psicóloga argentina didatiza esse conceito:

 PENSAMENTO   CONHECIMENTO   DESEJO  
 Inconsciente Realidade Fantasia  
 Objetividade Subjetividade  
 Possível Impossível
 Mecanismos Mecanismos
 Assimilação Projeção
 Acomodação Identificação
 Circularidade Repetição
 Inibição Repressão
 Esquemas sensório-motores   Esquemas
 Representação  
 Afeto
 Operações lógicas Operações retóricas  
 Classificação Metáfora
 Seriação (ou sequência)     Metonímia
 Consciente Categorias Categorias
 Objeto Ego
 Tempo Superego
 Espaço Id
 Causalidade
 Número    


Essas são, segundo a autora, as "estruturas do conhecimento e do desejo". O professor, apesar de estar relacionado com a motivação para o desejo de aprender, não entra nas questões mais profundas da subjetividade da criança, como o faria uma psicóloga ou psicopedagoga. Assim sendo, se o conto usado em sala de aula cumpre a função de motivar para o desejo de aprender, o professor está cumprindo seu papel.


(Imagem: JoCard)
3. Existem outros meios, que não sejam histórias fictícias, para motivar o desejo de aprender?

As histórias bíblicas são excelentes substitutos. Como exemplo, vamos citar a história de Davi, que apresenta uma riqueza de aspectos conscientes e inconscientes, tanto dentro da estrutura da construção do conhecimento quanto da do desejo. (Estamos nos atendo aos aspectos da motivação para a aprendizagem; portanto, não vamos focalizar o aspecto espiritual neste momento.) Quanto à estrutura da construção do desejo, vamos apenas delinear alguns possíveis aspectos do impossível no enfoque da história de Davi. (Para acompanhar o pensamento, veja 1 Samuel 16 e 17.)

ANÁLISE DA HISTÓRIA DE DAVI

Pensamento inconsciente

1. Conhecimento


“A objetividade instaura a realidade, isto é, aquilo que nós consideramos real, que está fora de nós, cujas leis não podemos modificar. Podemos repensar, mas não podemos anular essas leis” (PAÍN, 1996, p. 21).

1.1 Realidade

Objetividade 

  • Família de um fazendeiro (Jessé) que tinha oito filhos.
  • Davi era o caçula.
  • Davi era o responsável pelo cuidado das ovelhas do pai.

Possível

  • Davi continuar cuidando das ovelhas enquanto um dos irmãos mais velhos era escolhido para ser o rei de Israel.
  • Davi ser considerado pelo pai incompetente e imaturo para o cargo.
  • Davi ser alvo da inveja dos irmãos.

1.2 Mecanismos

Assimilação

  • Como pastor de ovelhas, Davi tem que enfrentar as intempéries, o medo, a solidão, o trabalho duro (conformando-se com seu papel).
  • Como músico, Davi tem que tocar harpa a fim de acalmar o rei. (Assim, entra em contato com a corte e conhece a vida nesse meio.)

Acomodação

  • Davi desenvolve iniciativa, liderança, confiança em Deus, coragem, pontaria, música e poesia.
  • Davi aprende a se portar como nobre muito antes de se tornar rei.
  • Davi aprende a ser guerreiro muito antes de entrar para o exército do rei.

Circularidade

Suas entradas e saídas do palácio real ajudam Davi a entrar em contato com o simples e comum e novamente com o complexo e sofisticado. Isso o prepara para escolher seu próprio estilo.

Inibição

A princípio, Davi ainda não sabe como agir no novo ambiente. Está tímido e receoso. (Com o tempo vai percebendo qual a conduta mais adequada e o que deve evitar. Vai adquirindo confiança, o que o faz se sentir mais seguro.)

Esquemas sensório-motores
Davi tem tempo de admirar as belezas da natureza, compor hinos em sua harpa, treinar pontaria com sua funda e usar o corpo, a agilidade e a força física para enfrentar situações de perigo.


(Imagem: JoCard)
1.3 Operações lógicas

Classificação

Davi escolheu entre coragem e medo, ousadia e covardia, confiança e incredulidade, povo de Deus e incircuncisos, fé e presunção, mal e bem.

Seriação

Passos dados por Davi: 

1. Pesquisou o ambiente da batalha.
2. Ofereceu-se para salvar a honra de Israel.
3. Recordou o cuidado de Deus por ele nos pastos de seu pai.
4. Recusou a armadura do rei, que atrapalharia seus movimentos.
5. Pegou suas próprias armas: o cajado, a funda, cinco pedras lisas do riacho e o alforje, onde pôs as pedras.
6. Aproximou-se do gigante.
7. Engrandeceu o poder de Deus.
8. Manteve o foco, percebeu o descuido e atirou a pedra em direção ao único lugar desprotegido do filisteu: a testa.
9. Derrubado o gigante, imediatamente correu para cima dele e decepou-lhe a cabeça.

2. Desejo

“O subjetivo se instaura na irregularidade, se constitui na esfera do desejo e é o que nos diferencia como pessoa singular. O desejo é algo que falta; não existe na realidade. Para que haja desejo tem de haver falta. Assim, o desejo se instaura em uma irrealidade. A realidade não é somente a realidade deste momento, mas também a realidade do que é possível. Portanto, o pensamento é o pensamento do que eu projeto como possível, dentro da realidade. Na ordem do desejo, ao contrário, o que se pensa é o impossível" (PAÍN, 1996, p. 21).

2.1 Fantasia

Impossível

O caçula ser escolhido por Deus para ser o próximo rei de Israel.
Um simples pastor de ovelhas adolescente ser chamado para cantar para o rei.
Um garoto de 17 anos vencer um urso e um leão.
Um garoto derrotar um gigante amedrontador.

II. Pensamento consciente


“Os mecanismos e as operações servem para criar categorias de pensamento. As categorias do pensamento objetivo são: objeto, tempo, espaço, causalidade, número” (PAÍN, 1996, p. 54). 

1. Conhecimento

1.1 Categorias

Objeto

Derrotar o filisteu, confiando no poder de Deus. Davi sabia o que queria.

Tempo

Davi rejeitou a armadura real, que atrapalhava sua movimentação, o que o faria perder tempo e o foco, e foi ágil no uso da funda. Percebeu exatamente o momento de lançar a pedra.

Espaço

Davi calculou exatamente uma distância segura para evitar risco desnecessário e, ao mesmo tempo, acertar o alvo – a testa do gigante.

Causalidade

Davi não se conduziu impulsivamente. Sabia por que estava lá: tinha consciência de que não poderia permitir que aquele filisteu afrontasse a honra de Deus. Tinha uma percepção global da realidade e só avançou depois de traçar estratégias baseado na hipótese de que sua experiência o ajudaria.

Número

Calculou a possibilidade de erro. Pegou cinco pedras no ribeiro que o separava do inimigo. Acertou na primeira tentativa.


(Imagem: JoCard)
CONCLUSÃO

Pudemos ter uma noção dos atos inconscientes e conscientes de Davi, os quais o levaram ao sucesso. Como tudo isso se relaciona com o desejo de aprender?

1. Davi aceitou sua realidade.
2. Davi passou pelos duros processos da aquisição do conhecimento.
3. No momento da demanda, Davi desejou o impossível.

Quando uma criança não sente desejo de aprender, algo está errado. O professor, ao contar histórias como as de Davi, pode mostrar a ela que é possível atingir o impossível (aprender), se ela desejar realmente, como Davi desejou. Isso não precisa ser dito explicitamente. A criança acabará inferindo por si mesma. Peça sabedoria "a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tiago 1:5, RA).

ATIVIDADES SUGERIDAS

Estas atividades devem ser feitas sem que se explique sua intenção, com a participação de todos os membros da classe, inclusive da(s) criança(s) que se quer(em) recuperar. 

1. Dramatização

Dramatizar as partes que mais se encaixam no perfil inseguro da criança. O aspecto da objetividade pode trazer à tona a subjetividade, trazendo seus conflitos à consciência, o que ajudará a criança a lidar com eles. 

Depois da dramatização, formar um círculo pedindo que cada criança fale sobre como se sentiu durante o processo. A devolutiva do professor deve ser concisa e sutil, jamais expondo a criança em questão, sempre falando ao grupo.
Tempo da dramatização: 10 ou 15 minutos no máximo.

Tempo da dinâmica: 40 minutos ou mais, para que todos possam falar.
O professor deve fazer anotações referentes às participações, principalmente das crianças com problemas, e depois encaminhá-las para a psicóloga da escola ou psicopedagoga.

2. Desenho

Depois de contar a história, pedir que as crianças façam um desenho daquilo que mais as impressionou. Pedir que elas falem sobre o desenho e expliquem porque aquele aspecto as impressionou. (Valorizar o que cada criança diz, mesmo que seja muito pouco.) 
Os detalhes mais significativos devem ser anotados e encaminhados sigilosamente para a psicóloga escolar ou psicopedagoga.

3. História escrita ou recontada 

Depois de contar a história, pedir que as crianças a recontem, escrevendo-a. Caso a criança não consiga escrever, pedir que ela se aproxime e conte sua versão só para o professor ouvir. 

Os detalhes mais significativos devem ser anotados e encaminhados sigilosamente para a psicóloga escolar ou psicopedagoga.

OUTRAS HISTÓRIAS BÍBLICAS

Outras histórias próprias para esse fim são as de Sansão, José e Daniel. Todas apresentam a aprendizagem e a superação como algo desejável além de situações impossíveis. 

Boa sorte e até nosso próximo encontro!

Referência bibliográfica
PAÍN, Sara. Subjetividade/objetividade – relações entre desejo e conhecimento. São Paulo: Cevec, 1996.

Artigo reproduzido do site: http://www.educacaoadventista.org.br

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Linguagem Simbólica dos Contos e das Histórias Bíblicas

“A história contada é como o vaso de argila
que traz no seu corpo a marca da mão que
o modelou; e é essa marca que torna possível,
completo, mostrando-o não apenas como um
objeto, mas também como o fruto de um desejo.”
Márcia Siqueira de Andrade



O universo infantil está cercado de inúmeras histórias e contos que são utilizadas para encantar, para ensinar, para transformar e também como instrumento terapêutico num processo de cura e desenvolvimento pessoal.
Cada uma dessas histórias e estórias possue em seu enredo situações que são vivenciadas no cotidiano e podem ou não ser elaboradas de forma positiva, gerando conflitos e angústias naquele que as vivencia.
Este trabalho aborda as interpretações dos contos de fada e das histórias bíblicas numa visão psicanalítica e busca analisar as relações simbólicas existentes em seu contexto que são fundamentais para sua utilização num processo terapêutico e arteterapêutico.
Para Rasga (2007), os contos de maneira geral, apresentam apenas o que é essencial numa narrativa concentrada; apresentam poucos personagens, fatos, lugar e tempo limitados. Dentre os contos encontram-se os textos maravilhosos nos quais o imaginário mistura-se ao real. Pode-se classificar as narrativas maravilhosas em:
• Contos de fada – são de origem celta e em seu enredo trazem o encantamento e/ou metamorfose (fadas, bruxas, animais falantes); para auto-realizarem-se seus heróis precisam superar obstaculos ou provas; tratam de problemáticas ligadas ao existencial. Podem conter ou não a presença de fadas.
• Contos maravilhosos – surgiram de narrativas orientais e abordam temas que enfocam os aspectos sociais; os heróis e heroínas alcançam a auto-realização na conquista de bens materiais; mostra a luta pela sobrevivência e a miséria dos personagens principais. Não contém fadas para auxiliar o protagonista.
Para Rocha (2007), as semelhanças existentes entre eles estão no fato de que, ambos os textos, apresentam obstáculos, viagens, sonhos/metas, algo ou alguém como mediador e a conquista com o final feliz. Além de servirem como meio de entretenimento, são utilizados para transmitirem valores morais e costumes e como instrumentos terapêuticos.


3.1 – Os Contos de Fada

Um dos primeiros a desenvolver estudos sobre a importância dos Contos de Fada no desenvolvimento psíquico da criança foi Jung. Para ele as associações estão ligadas as experiências armazenadas no inconsciente. (ALT, 2000).
Alguns seguidores de Freud acreditam que as lutas e os conflitos do conto de fada estão basicamente enraizadas nas questões edipianas, são puramente de ordem sexual e por isso as interpretações seguem as fases da sexualidade infantil: fase oral, fase anal e fase fálica.
Vários outros deixaram sua contribuição, entre eles podemos citar Bettelheim (1980) que defende uma interpretação psicossexual para os contos de fada. Para o autor os contos enfatizam as questões do ID, Ego e Superego, do bem e do mal e transmitem mensagens à mente consciente, à pré-consciente e a inconsciente.
Para ele é através das imagens que falam ao inconsciente que os processos infantis inconscientes se tornam claros para as crianças. Enquanto se desenvolve, a criança precisa aprender gradativamente a se entender melhor para poder entender os outros e assim estabelecer relações satisfatórias e significativas com os demais.
As crianças não compreendem os seus sentimentos pelo que eles são, apenas sentem e buscam verbalizá-los através de ações. Não há nada mais difícil e importante na criação das crianças que ajudá-la a encontrar significado na vida, e para que se possa encontrar este significado mais profundo necessita-se “transcender os limites estreitos de uma existência auto-centrada e acreditar que daremos uma contribuição significativa para a vida.” (op.cit.p.12).
Para que o conto possa atingir o inconsciente da criança precisa ser contado com riqueza de detalhes, caso contrário, perderá sua significação mais profunda. E se tentarmos explicar seus significados destruiremos seu encantamento e impossibilitaremos à criança de sentir que foi ela quem enfrentou com êxito uma situação difícil mediante suas interpretações interiores.
Uma boa história só cumpre seu papel quando estimula a imaginação, desenvolve o intelecto e clareia as emoções da criança. Apresentar um dilema existencial de forma breve e categórica, simplificar todas as situações, ter figuras esboçadas claramente e personagens que são mais típicos do que únicos, o mal ser tão onipresente quanto a virtude e se apresentarem sob forma de figuras e ações e o mal sempre perder no final são as características mais importantes dos contos de fada .
Nos contos de fada, as crianças lidam com diferentes problemas, um de cada vez, e isto facilita as mudanças na identificação do paciente com os personagens ou dos conflitos apresentados.
Identificar-se com um dos personagens leva a criança a projetar-se e vivenciar as experiências dele na sua própria história, e a garantia de um final feliz lhe assegura que qualquer que sejam suas descobertas sobre o seu inconsciente ela também poderá “viver feliz para sempre”.
Bettelheim (1980, p.23) coloca que para identificar qual história “é mais importante para uma criança específica numa idade específica depende inteiramente de seu estágio psicológico de desenvolvimento e dos problemas que mais a pressionam no momento.”
Numa outra abordagem teórica, a psicológica, o foco central das histórias está no senso do “eu”, nos aspectos da personalidade que prejudicam a ligação íntima da criança com outras pessoas, especialmente os pais. Nesta visão os contos são considerados como conflitos psicológicos ocultos. Eles se fundamentam nos sete pecados capitais da infância: a vaidade, a gula, a inveja, a luxúria, a hipocrisia, a avareza e a preguiça.
Para Cashdan (2000), que defende a perspectiva psicológica, os contos de fada são fonte de incomparável aventura e apresentam dramas sérios que refletem eventos que ocorrem no interior das crianças. São “psicodramas da infância”. (op.cit., p.33).
Para ele o valor duradouro dos contos se encontra “no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento”. (op.cit., p.25).
Algumas preocupações marcam a vida infantil como sua posição na família, o sentimento que se tem por ela e quanto dele é dispensado a ela e seus irmãos e o medo de serem abandonadas em conseqüência do que dizem ou fazem.
Cashdan coloca que boa parte dos acontecimentos do conto de fada espelha as lutas interiores que as crianças travam contra as forças do eu e estas forças enfraquecem a capacidade de manter relacionamentos significativos. Através destas histórias, as crianças “projetam inconscientemente parte delas mesmas em vários personagens usando-os como repositórios psicológicos para elementos contraditórios do eu.” (op.cit., p.31).
Quando se apresenta o conto chamando sutilmente a atenção para o tema central as respostas podem se tornar mais significativas às perguntas dadas e quando explorado de maneira agradável pode auxiliar a resolver lutas interiores entre as forças do eu, forças negativas e positivas.
A criança precisa penetrar na história em um nível pessoal. O segredo do sucesso na terapia com as histórias se encontra no processo de identificação que deve ocorrer entre a criança, o personagem e os conflitos por ela enfrentados. Quando a criança chega à clínica psicopedagógica com dificuldades de expressar seus sentimentos, a história pode ser tornar uma saída para o paciente se reconciliar com os seus sentimentos e seus fracassos.
Cashdan (2000) diz que os eventos que formam um conto de fada acontecem em quatro etapas no caminho da descoberta.
1. Travessia – leva o herói a uma terra diferente, como floresta escura, poço e escadaria secreta, cheia de acontecimentos mágicos. A mensagem implícita está em que a pessoa precisa explorar, examinar, correr riscos para poder crescer.
2. Encontro – com uma presença maquiavélica. Força a criança a enfrentar tendências indesejáveis que possui. Enfrentar o mal torna-se um ato de auto-conhecimento.
3. Conquista – é a mais fundamental das quatro etapas, pois apresenta uma luta de vida e morte. Pela morte da bruxa a criança deixa de auto-recriminar, supera os conflitos internos e os aspectos negativos do eu são destruídos garantindo a superioridade dos aspectos positivos. “O eu é transformado, purificado levando a criança a se sentir mais auto-confiante e segura”.(op.cit.,56)
4. Celebração – casamento, reunião de família após a morte da bruxa com felicidade eterna. “De uma perspectiva de vantagem psicológica, um final feliz significa que as forças positivas do eu assumiram o comando.”(op.cit.56).
Os contos são considerados por Cashdan (2000, p.56) como “jornadas de triunfo e transformação.”
Bettelheim (1980, p.33) nos diz que “o conto de fada é terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução através da contemplação do que a estória parece implicar acerca de seus conflitos internos neste momento da vida.”


3.2 – A Contribuição da História Bíblica como recurso terapêutico e arteterapêutico

A Bíblia é um conjunto de 66 livros escritos por vários autores que viveram em épocas diferentes e de profissões diversas. Nela encontram-se relatos históricos, poemas, cânticos, cartas de aconselhamento e código de leis e todos mantém uma unidade de pensamento em seus textos.
Néri (1996), ao falar sobre o universo das histórias bíblicas, estabelece comparações entre os contos de fada e os relatos bíblicos, tais como: ambos, em sua origem, não foram escritos para as crianças e por isto sua linguagem não lhes eram de fácil compreensão sofrendo adaptações posteriormente para atingir a mente infantil; apesar das alterações sofridas não perderam seus elementos essenciais e estruturais ; eram transmitidos de forma oral e despertam até os dias atuais grande interesse nas crianças. Para o autor, o maravilhoso existe nas histórias bíblicas, porém sua causalidade é atribuída a natureza divina, diferentemente do “fantástico” ou do “mágico” dos contos populares que é de origem sobrenatural. Dentro das histórias bíblicas encontram-se elementos simbólicos como a água, o rio, o mar, alguns animais, alimentos, os anjos, a arca, o fogo, o gigante, sonhos, entre vários outros. Néri analisa que apesar dos personagens bíblicos não apresentarem um único tipo ou arquétipos de comportamentos humanos como ocorrem nas narrativas maravilhosas, a maioria deles é reconhecido, identificado por um único traço de sua personalidade apesar de em suas histórias de vida apresentarem variações em seus comportamentos e atitudes. Tal caracterização dos personagens facilita o processo de identificação do ouvinte com o personagem.
Como exemplo, Néri cita Noé caracterizado pela paciência, Davi pela coragem e força interior, José pela fidelidade, Moisés pela liderança, Sansão pela força, entre outros.
Em tais histórias pode-se identificar temas como superação, cooperação, aceitação, inclusão, perdas, abandono, reconquista, adoção, missão, liderança, rejeição, luta, esperança, auto-confiança, medo, angústia, intimidação, coragem e vitória.
Os textos bíblicos são ricos em símbolos e trazem também uma linguagem simbólica que podem atuar no consciente e inconsciente de cada pessoa que a escuta, assim como os contos de fada.
Bettelheim (1980, p.22) nos diz que
(...)muitas histórias bíblicas são da mesma natureza que os contos de fada. As associações conscientes e inconscientes que despertam na mente do ouvinte depende de seu esquema geral de referências e de suas preocupações pessoais. Daí as pessoas religiosas encontrarem neles coisas importantes que não são mencionadas aqui.
Com a exceção de que Deus é central, muitas histórias da Bíblia podem ser reconhecidas como similares a contos de fada. (op.cit, p.67).

O autor comenta que os contos também trazem temas religiosos, pois foram escritos num período em que a vida das pessoas estava fundamentada na religião, e os considera como obra de arte porque possuem vários aspectos possíveis de serem explorados no aspecto psicológico.
Guttmam (2004), comenta que as histórias judaicas, sendo elas baseadas na Bíblia, são utilizadas para favorecer o crescimento espiritual de quem as escuta, ajudando na elaboração de suas vidas. Para ela, o terapêutico de uma história pode ocorrer ao ouvir, ao ler,ao contar e ao criar.
Assim como nossa vida emocional pode ser expressa por mitos antigos ou contos de fadas, no judaísmo as histórias bíblicas fazem que as pessoas ampliem sua visão de si mesma e do mundo... E, muitas vezes, quando escutamos determinadas histórias em momentos nos quais estamos abertos a elas, temos a sensação de que alguma percepção aconteceu e algo se transformou.(op.cit.,p. 259).

Os textos bíblicos a muito têm sido utilizados na clínica terapêutica e analisados à luz da psicanálise. Dolto (1979), discípula de Lacan, em sua prática clínica, também fez uso da arte como meio de comunicação com seus pacientes e de textos bíblicos no processo terapêutico.
Eles têm um poder muito mais surpreendente. Há dois mil anos eles são lidos e produzem sempre um efeito de verdade no íntimo de todo aquele que os lê.
Confesso que estou em busca das fontes dessa verdade. Sejam eles históricos ou não, esses textos são uma torrente fantástica de sublimação dos impulsos. Escritos com tal poder de penetração não podem ser negligenciados. Eles merecem que, formados pela Psicanálise, pesquisemos essa dinâmica, cuja chave deixam subentender.
(...) A leitura dos Evangelhos, repito, produz inicialmente um choque em minha subjetividade; depois, em contato com esses textos, descubro que Jesus ensina o desejo e nos seduz.
Descubro que esses textos de dois mil anos atrás não estão em contradição com o inconsciente dos homens de hoje em dia.
(...) O que leio nos Evangelhos, do ponto de vista da Psicanálise, parecer ser a confirmação, a ilustração dessa dinâmica viva, operando no psiquismo humano e de sua força que vem o inconsciente, aí onde o desejo nasce, de onde parte em busca daquilo que lhe falta.
(...) Coisa alguma da mensagem de Cristo estava em contradição com as descobertas freudianas. Sem hesitar decidi levar adiante essa leitura.
A vida, o efeito de verdade sempre nova que a convivência com os Evangelhos engendram no coração e na inteligência são um apelo renovado diariamente para que ultrapassemos nossos processos lógicos conscientes. São as mesmas palavras e estas parecem revelar um sentido novo, na medida em que avançamos em nosso tempo, no decurso de nossas experiências. (op. cit., p.12 e 14).

Simões (2008), em sua atuação como fonoaudióloga , psicopedagoga e psicanalista, passou a utilizar no processo terapêutico de seus pacientes, as histórias bíblicas, associadas as técnicas arteterapêuticas, como instrumento de mediação para o processo de identificação do paciente com a história, nos quais os personagens se faziam porta-vozes de seus conflitos e desejos e auxiliavam o paciente em seu auto-conhecimento, de forma agradável e poética. Fundamentou-se em Dolto (1979 e 1981), que em seu livro O Evangelho à Luz da Psicanálise relata sua experiência clínica com textos bíblicos e também estabelece uma relação com os contos de fada:
(... ) Ao ler os Evangelhos, eu descubro um psicodrama. As próprias palavras com que são narrados, a seleção das frases, a escolha de certos temas podem ser compreendidos, repito, de uma outra maneira, a partir da descoberta do inconsciente e de suas leis, por Freud.
Eles têm um poder muito mais surpreendente. Há dois mil anos eles são lidos e produzem sempre um efeito de verdade no íntimo de todo aquele que os lê.
Confesso que estou em busca das fontes dessa verdade. Sejam eles históricos ou não, esses textos são uma torrente fantástica de sublimação dos impulsos. Escritos com tal poder de penetração não podem ser negligenciados. Eles merecem que, formados pela Psicanálise, pesquisemos essa dinâmica, cuja chave deixam subentender.
[...] A leitura dos Evangelhos, repito, produz inicialmente um choque em minha subjetividade; depois, em contato com esses textos, descubro que Jesus ensina o desejo e nos seduz.
Descubro que esses textos de dois mil anos atrás não estão em contradição com o inconsciente dos homens de hoje em dia.
[...] O que leio nos Evangelhos, do ponto de vista da Psicanálise, parecer ser a confirmação, a ilustração dessa dinâmica viva, operando no psiquismo humano e de sua força que vem o inconsciente, aí onde o desejo nasce, de onde parte em busca daquilo que lhe falta.
[...] Coisa alguma da mensagem de Cristo estava em contradição com as descobertas freudianas. Sem hesitar decidi levar adiante essa leitura.
A vida, o efeito de verdade sempre nova que a convivência com os Evangelhos engendram no coração e na inteligência são um apelo renovado diariamente para que ultrapassemos nossos processos lógicos conscientes. São as mesmas palavras e estas parecem revelar um sentido novo, na medida em que avançamos em nosso tempo, no decurso de nossas experiências. (op. cit., 1979, p.12 e 14).

Edinger (1990), psicanalista, discípulo de Jung, diz que o homem tem necessidade desvendar os mistérios da alma naquilo que ele produz e que a Bíblia ocupa lugar proeminente nessa busca.
Os eventos da Bíblia, embora apresentados como história, são psicologicamente compreendidos como imagens arquétipas, isto é, como eventos pleromáticos que repetidamente irrompem na dimensão espácio-temporal e requerem um ego individual para poderem sobreviver. Quando lemos essas estórias com abertura para suas reverberações inconscientes, nós as reconhecemos como importantes para a nossa própria experiência. (op. cit., p.35).

Na busca de referenciar o tema abordado, por meio de diversos autores, percebe-se que as histórias bíblicas através de seus personagens e conteúdos manifestos podem atuar na vida de seus ouvintes, em especial daqueles que estão abertos para elas, como mediadoras no processo de transformação, de auto-conhecimento, de cura e de fortalecimento do potencial criativo ao promover o encontro do paciente consigo mesmo, assim como a Arteterapia. Conclui-se então, que ela pode ser um instrumento terapêutico não só pelo ouvir, como também pelo contar.

REFERÊNCIAS



ALESSANDRINI, C. D. (org) Tramas Criadoras na Construção do Ser Si Mesmo São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999..
ALESSANDRINI, C. D. Oficina Criativa e Psicopedagógica, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1996.
ALGAZI, I. S. Síntese da História Judaica 1ª parte. Internet: http. www. tryte.com.br/ judaismo/coleção/br/livro 2/ síntese, 2004.
ALT, C. B. Contos de Fadas e Mitos: Um trabalho com Grupos, Numa Abordagem Junguiana, São Paulo: Vetor, 2000.
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