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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Abordagem Terapêutica da História Bíblica de José no Egito - Psicopedagógica e Arteterapêutica



                


Na história bíblica de José no Egito encontra-se a questão da perda, focada primeiramente na morte da mãe e depois na separação do pai e irmãos ao José ser vendido para o Egito; encontra-se a rivalidade entre os irmãos e a angústia da castração em diversos momentos terminando com o reencontro vitorioso e feliz da família após longos anos de solidão sem qualquer informação a respeito de seus entes queridos.
Conforme a história judaica, José tinha onze irmãos, era o filho mais velho da esposa amada e tinha a beleza de sua mãe Raquel. Era o filho favorito de Jacó que lhe dedicou bastante tempo ensinando tudo o que havia aprendido de seu pai, avô de José, e nas academias de Shem e Ever.
Segundo Wondracek (2003) após a morte de Raquel no parto de Benjamim, Jacó assumiu a função paterna e materna e isso criou-lhe dificuldades de  tirar o filho da posição fálica.
De acordo com a cultura judaica, ao pai cabe o papel, a função de manter a linhagem da família; ele é a autoridade máxima e a mãe tem a função de procriar e cuidar dos filhos. Quando uma mulher era incapaz de gerar um filho, trazia vergonha sobre si, e no caso de Raquel era uma tortura ver a irmã e as servas tornando-se mães de filhos do esposo tão amado. Conforme Wondracek (2003) com o nascimento de José ele retira a mãe da vergonha de ser estéril e através do nascimento de mais um filho ela perde a vida.
Como demonstração de sua condição de filho predileto de seu pai, José ganha de presente uma túnica de várias cores e longa, característica das roupas de nobres e chefes tribais, fortalecendo o narcisismo existente nele. José sonha que é reverenciado por sua família e choca até mesmo a seu pai, mas não consegue interpretá-los.
Wondracek (2003) ao citar os sonhos diz que “seu psiquismo está estruturado, é capaz de produzir formações do inconsciente”. ... “considerando seus sonhos apenas no aspecto psicológico, pode-se dizer que eles expressam a realização dos desejos de todo ser humano na etapa do narcisismo – ser o falo, ser o todo poderoso.”
Cumprindo uma ordem do pai, José sai ao encontro de seus irmãos que cuidavam do rebanho no campo. Ao vê-lo, desejam matá-lo, mas sob a proteção do irmão mais velho, José acaba sendo jogado no poço onde fica solitário.
Pode-se verificar aqui a questão da rivalidade fraterna e o autor Bettelheim (1980) aponta que esta rivalidade está relacionada diretamente com o sentimento que a criança tem pelos pais. Quando um filho é privilegiado por receber uma atenção especial dos pais, o outro filho pode sentir-se menosprezado e rejeitado. O que gera a rivalidade entre os irmãos é o temor de não receber o amor e a consideração dos pais mediante a comparação existente entre os filhos. Segundo ele, isso pode ser observado nas histórias “através do fato de que pouco conta se os irmãos realmente possuem maior capacidade”.( op.cit..279)

A estória bíblica de José diz que o comportamento destrutivo de seus irmãos se deveu a ciúmes do afeto que o pai lhe dedicava. À diferença de Borralheira, os pais de José não partilhavam das humilhações que faziam a ele e, ao contrário, preferiam-no aos outros filhos. Mas José, como Borralheira, é transformado em escravo e, como a menina, escapa milagrosamente e termina superando os irmãos. (op.cit.279)

O poço representa a angústia e a luta enfrentada diariamente e ao entrar nele pode sair renovado, com experiências novas e mais encorajado para os novos obstáculos.
Para Wondracek ( 2003 *) os irmãos exerceram “a função paterna do corte”, uma castração simbólica, ao retirarem a túnica dada pelo pai, jogarem José no poço e o venderem como escravo para o Egito.
Para o povo judeu o Egito lembra a escravidão e a autora o relaciona com algo “traumático”, com uma “escravidão interna”. Para ela houve um “colapso narcisista” quando passou “de príncipe a escravo”.
O Egito representou para José uma escola, onde ele enfrentaria o sofrimento, a angústia, a castração e os conflitos constantes para sair-se vencedor, como um ensinante-aprendente.

Bettelheim (1980, p. 241) diz que:
Quando a posição da criança dentro da família torna-se problemática para ela ou para os pais, ela começa o processo de luta para escapar da existência triádica. Com isso, penetra no caminho desesperadamente solitário de buscar-se a si mesmo, uma luta na qual os outros servem principalmente de elementos que facilitam ou impedem este processo. Em alguns contos de fada o herói tem de procurar, viajar, e sofrer vários anos de existência solitária antes de estar preparado para encontrar, salvar e reunir-se a outra pessoa numa relação que dá significado permanente às duas vidas.

De acordo com a história judaica, José tinha dezessete anos quando foi vendido para Potifar, principal funcionário da guarda do rei, atraído por sua beleza, sua sabedoria e sua fina educação.
White (1993, p.212) diz que durante algum tempo ele entregou-se a “uma dor e pesar incontidos. Mas, na providência de Deus, mesmo esta experiência seria uma benção para ele. Aprendeu em poucas horas o que de outra maneira anos lhe poderiam ter ensinado.”
“ José acreditava que o Deus de seus pais seria o seu Deus.”( op.cit.214)
A autora Wondracek (2003) cita que José não permaneceu preso no tempo, nem se sentiu totalmente desamparado. “Deus, como um pai amoroso, que impede a posição fálica mas abre uma outra via, como o pai do 3º tempo. Um pai simbólico, não mais terrível, que acompanha a restauração depois do traumático.”
Por causa de seus talentos incomuns logo foi promovido por Potifar. Renovado em seu amor-próprio pela certeza da proteção do Deus eterno, esforçava-se em fazer tudo bem feito e por isso tudo que tocava prosperava. Não se deixou influenciar pelos aspectos negativos da vida egípcia. A beleza e simpatia do jovem rapaz chamou a atenção da severa esposa de Potifar que tentou seduzi-lo. Por manter-se honesto, fiel e firme em seus princípios foi acusado injustamente e colocado na prisão.
            A prisão também pode representar a angústia, o sofrimento, a luta do dia-a-dia.
Segundo a história judaica, da mesma forma como se comportou na casa de Potifar e prosperou, assim aconteceu na prisão.
Wondracek (2003) cita que

....novamente se encarrega dos negócios do outro, situando-se como filho que serve ao pai, e se torna depositário da sua total confiança. Todas às vezes, José galga os postos até ser o “imediatamente abaixo” da autoridade máxima. Não será uma procura de repetir a posição que ocupara junto ao coração do pai?

Na prisão começa a ficar conhecido por interpretar sonhos através do qual consegue a liberdade. Wondracek (2003) faz uma metáfora ao dizer “que entender nossos sonhos nos liberta da prisão que a censura impôs aos nossos desejos conscientes.”
Os sonhos foram para José um alimento vitalício. Quando pais chegam à clinica psicopedagógica levam sonhos destruídos e filhos encarcerados ao sintoma do não aprender. Quando o psicopedagogo resgata a história de cada paciente se defronta com as angústias, castrações, sofrimentos, conflitos e incertezas quanto às decisões a serem tomadas. Representa também para o paciente, aquilo que José representou para os servos do rei e para o próprio rei Faraó, previsões de tempos bons e maus.
Ao interpretar os sonhos do Faraó, José se recusa, de acordo com WONDRACEK (2003), a ocupar o lugar do sujeito-suposto-saber quando diz que a interpretação não vem dele e sim de um Pai maior que ele.
A história conta que a interpretação dos sonhos do rei mostrando que haveria um período de fartura e outro de fome intensa eleva José a um autoposto no governo, tornando-se o homem mais importante depois do rei, responsável por organizar e fazer provisões durante a fartura para o período de fome.
José, agora como trinta anos de idade, é então vestido com vestes reais, com uma túnica especial, com jóias de ouro e com um anel contendo o sinete real. Para Wondracek (2003) a história familiar se repete com a diferença de que agora recebe a filha do rei como esposa – “a interdição paterna fecha o lado do retorno para a mãe (passado), mas abre para o futuro.”
O período dos anos de “vacas gordas”, para a autora, foram vividos por José durante sua infância, na prosperidade na casa de Potifar e agora como vice-rei do Egito. Para ela, nesta época, não só a semente da terra produziu, mas também a de José ao armazenar alimento que o retira da privação emocional.
Ao citar Freud (1921), ela menciona que alguns acontecimentos psíquicos não são elaborados no momento em que ocorrem por uma incapacidade do psiquismo de dar conta de fazê-lo naquele momento. A compreensão só ocorre num outro momento quando algo liga psiquicamente o traumático e o fixa dentro do psiquismo.
Segundo o relato histórico, José construiu imensos celeiros onde armazenou as provisões de alimentos. Ao citar S. Bleichmr (1994), a autora coloca que a construção dos celeiros representa construir paredes que sirvam de tampão, obturação, para que o sofrimento não fique circulando solto dentro do psiquismo.
Com o nascimento do primeiro filho a história se repete, há novamente um pai e um filho. José agora ocupa a função de pai. Deixa de ser o segundo, saindo da posição na qual sofria com a falta do pai, e passa a ser o primeiro colocando alguém em seu lugar.
Com o nascimento de seus dois filhos José pôde re-significar os seus traumas, mas não completamente. O sofrimento causado pela relação com os irmãos ainda não estava resolvida.
Conforme o relato bíblico e outros autores que narram a história judaica os irmãos de José foram ao Egito em busca de alimentos. Ele sofreu ao encontrá-los. Não foi reconhecido e por isso se aproveitou para testá-los, enganando-os e prendendo-os, fazendo com que sofressem um pouco do que havia passado. Da mesma maneira como seus irmãos mentiram a respeito de seu desaparecimento José os cerca em determinados momentos por mentiras reativando as lembranças do que fizeram. O desejo de vingança foi dominado porque dentro dele havia uma lei paterna inscrita – o temor a Deus.
Wondracek ( 2003 *) citando Freud (1921) menciona que a repetição tem o objetivo de dominar a angústia.

Quando a criança passa da passividade da experiência para a atividade do jogo, transfere a experiência desagradável para um de seus companheiros de brincadeira e, dessa maneira, vinga-se num substituto. ... há maneiras e meios suficientes para tornar o que em si mesmo é desagradável num tema a ser rememorado e elaborado na mente.(op.cit,p..27)

 Desta forma, José repete sua experiência traumática de diversas maneiras fazendo com que sua angústia seja expressa em palavras. Wondracek (2003) diz que

Tudo aquilo que não é transcrito para palavras permanece solto, livre, aterrorizante. Por isto o processo terapêutico e a confissão, tomam a forma libertadora – o que aflige é posto em palavras, recebe um nome, e com isto passa ao plano do simbolizado, passível de representação. Dar um nome à dor é um trabalho da alma, é construir o saber do padecer.

Quando os irmãos retornaram ao Egito levando Benjamim, foram recebidos na casa de José para uma refeição. A cena de todos os irmãos à mesa, levam-no a relembrar a casa de seu pai. Volta a fazer parte da cena familiar e do afeto do qual teve que renunciar para poder sobreviver durante os anos de solidão.
Ao prender ao irmão menor, Benjamim, José faz com que seus irmãos relembrem o sofrimento causado ao pai pelo que fizeram a ele e os leva a verbalizarem sua culpa e arrependimento. José chora ao ouvir a confissão dos irmãos libertando sua angústia até então trancada dentro de si. Já não consegue mais esconder sua identidade e se apresenta aos irmãos. Chorou tão alto que, segundo o relato bíblico, até “os egípcios ouviram, e a notícia chegou até o palácio do rei.” (GÊNESIS 45: 2)
Imediatamente busca saber se o pai ainda está vivo e manda buscá-lo para que venham viver com ele no Egito. No reencontro restaura-se a relação perdida, volta a ser o segundo junto ao primeiro, seu pai.
José finalmente encontra um significado para seu sofrimento ao dizer que Deus o enviara ao Egito antes deles para preserva-lhes a vida e conservar a descendência. Wondracek (2003) cita que “ achar um sentido no sofrimento é o que impediu que José sucumbisse com tudo que lhe aconteceu. Achar um sentido é poder ligar o sofrimento a algo, é poder representar, simbolizar, e com isto dar um nome, dar um rosto, e não só engolir como fogo.”
Andrade (1998, p.27) diz que “ o passado, e tudo que não seja da ordem do futuro é passado, deixa de ser um tempo perdido para tornar-se um celeiro das dimensões reprimidas que, resgatadas voltam plenas de possibilidades e realizações onde a história se deforma e se transforma num futuro onde as limitações do presente podem ser superadas.”
José, assim como Cinderela, vivencia a perda materna e um luto pela perda paterna, a rivalidade fraterna, o trabalho escravo e a transformação de escravo em pessoa  poderosa. Este relato bíblico apresenta vários temas universais e arquétipos também encontrados e explorados por vários contos de fada, e que ao serem apresentados à criança que vive conflitos semelhantes possibilitam-lhe apropriar-se dos instrumentos internos utilizados pelo personagem para resolução de seus próprios conflitos.



REFERÊNCIAS 

ANDRADE, M. S Psicopedagogia Clínica, Manual de Aplicação Prática para Diagnóstico de Distúrbios do Aprendizado. São Paulo: Póluss Editorial,1998.

BETTELHEIM, B. A Psicanálise dos Contos de Fada, Rio de Janeiro: Paz e                  Terra. 1980.

BÍBLIA SAGRADA. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

WHITE, E. G., Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1993.

WONDRACEK, K. K. José do Egito – Elaboração e Superação do Egito. Internet: http. www. anglicanismo. net/humanas/psicologia- abril/2004.


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